Jovem grafiteiro Paulo Ito criou painel sobre a Copa, que teve repercussão mundial.

O painel foi feito em maio deste ano e levou sete horas para ser concluído. Um menino com alguns dentes faltantes, na mesa de um barraco, ele de garfo e faca nas mãos olha e chora de fome e uma bola de futebol ocupa seu prato. O que isso quer dizer? Paulo Ito diz: “prefiro que cada pessoa que veja o meu trabalho tire suas conclusões”.

O espaço que escolheu para grafitar é o portão do EMEI Santos Dumont, na Rua Padre Chico. “Não é a primeira vez que faço um trabalho por aqui”, fala sobre o trabalho que ele e outros grafiteiros realizam anualmente, antes da Feira de Artes da Villa Pompeia, em todos os quatro muros que circundam a escola. “O DJ Amaury e o Deddo Verde são dois grafiteiros que escolhem quem vai grafitar aqueles muros. Para eu ficar com os portões da escola, cheguei às seis horas da manhã. Quem chega primeiro escolhe o lugar onde quer fazer o trabalho. Não parece, mas tem concorrência”, conta ele.

Para ele, seu trabalho é uma crítica “ao poder da Fifa”. Ele fala que a entidade é “autoritária, humilha com suas exigências e não merece respeito”. Seu painel mostra que a arte de rua pode dizer muito mais do que palavras. E causar efeito por quem vê seu trabalho “é o que eu quero provocar”.

A carreira de Paulo Ito tem muitos anos de rua e vários painéis produzidos pelas cidades, principalmente São Paulo. Seu forte é fazer críticas – a empreiteiras, capitalismo, Fifa. Seu traço, bem particular, é respeitado “e até copiado” por outros artistas do meio, “embora poucos admitam, mas tudo bem”. Para isso, Paulo sai pelas ruas todas as semanas. “Geralmente consigo fazer um grafiti por semana, mas tudo depende do local, da motivação e das condições de tempo. Embora, se é dia de grafitar, nem a chuva me impede de ir para a rua”, afirma ele.

Paulo é paulistano e cursou artes plásticas na PUC de Campinas onde, com outros colegas de curso, começou sua jornada de grafiti. “Nas primeiras saídas, nós fazíamos um pouco de tudo e fui pegando gosto por esse trabalho, pelos muros e paredes”.

Ele mora na Vila Anglo Brasileira há oito anos. “Imigrou” para o atual endereço depois que o imóvel em que morava na Rua Rodésia, na Vila Madalena, foi vendido para uma construtora. “Saí pela região em busca de uma casa onde pudesse morar e ter meu estúdio e encontrei aqui nesta rua tranquila”.

No início, teve alguns problemas com o policiamento e chegou até a ser detido. “A polícia daqueles anos ainda não sabia distinguir o grafiteiro do pichador. Hoje, ainda tenho alguns problemas, mas é bem menor”. Ele explica que o grafiteiro geralmente pede autorização para o dono do muro, mas “nem todo mundo entende bem”. O pichador prefere fazer suas letras, muitas vezes só legíveis por quem faz, “não pede autorização, picha o que acha que deve ser pichado”.

O painel da Pompeia ganhou espaços em vários veículos da mídia, como a BBC de Londres, o jornal Los Angeles Times, canais de TV da Alemanha, da Itália, do Vietnã e outros mais que podem ser acessados através do YouTube e no Facebook do artista. “Para mim, foi uma surpresa o que o painel gerou em matéria de entrevistas pelos jornalistas de todo o mundo que estavam aqui cobrindo os jogos da Copa. Com certeza, a divulgação do meu trabalho cresceu como nunca”.

Ele mesmo foi surpreendido pela fama que o painel lhe trouxe. “Depois de pronto, uma amiga postou uma foto nas redes sociais. Eu até pedi para não fazer isso. Mas, de repente, muita gente ficou sabendo e a partir daí, um monte de jornalistas quis me conhecer e falar sobre o painel”. Ele espera, com essa divulgação toda, ter mais espaço para seu trabalho aqui ou fora. “Até então, nunca tinha tido essa repercussão”.

Esse interesse da mídia mundial fez com que passasse a ser mais conhecido. “Tenho muitos grafitis pela cidade e até agora nunca tinha tido tamanho interesse pelo meu trabalho”. Paulo reclama que as mídias nacionais tiveram um interesse bem menor do que as estrangeiras. Aliás, conta ele, que Globo, Record e Veja o procuraram. “Mas, por ideologia, não quis falar com esses veículos. Esperava que a TV Cultura me procurasse, mas até agora não houve contato.”

Paulo tem um jeito tranquilo de falar. Sua voz é baixa mas seus comentários são de alguém que acredita nas próprias convicções. Diz que poderia ganhar mais dinheiro se “fizesse um trabalho mais comercial, mas isso não me interessa”. Para viver, ele faz painéis em empresas, como restaurantes da rede Si Señor, de comida mexicana, e casas de pessoas que gostam de seu traço e da proposta de seu trabalho. “Não quero ser um Romero Brito”, diz.

“São os painéis e grafitis para particulares que me mantêm”. Quando contratado para um trabalho, apresenta o projeto para aprovação. “Sempre posso alterar alguma ideia inicial para quem me contrata. Mas geralmente quem me chama, já conhece meu estilo”, explica esse artista consciente.

As figuras que faz nas paredes e muros sempre são mais densos, e lembram figuras de histórias em quadrinhos, da qual se diz fã e até tem alguns trabalhos nesse segmento. Na sua explicação, fazer HQ “é cem vezes mais difícil do que um painel, e quem faz quadrinhos, ganha dez vezes menos e tem dez vezes mais trabalho”. Recentemente apresentou um projeto para uma editora, mas achou que não valia a pena. Quem sabe em um futuro próximo ele mesmo banque a edição de seu trabalho em HQ.

Ele se define como “um cara mal-humorado e coloco minhas críticas no que faço pelas ruas”, e quer expressar com o grafiti sua visão de mundo. Os personagens mostram isso, como o painel com mais de 20 metros, que fica na Rua Bica de Pedra, quase esquina da Rua Aurélia, onde uma fila de homens está ligada por uma corda no pescoço de cada um.

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