Autor de livros sobre os Estados Unidos, o professor e historiador Antonio Pedro Tota fala sobre nosso relacionamento com aquele país. O interesse do historiador pelos Estados Unidos aconteceu pela presença deles no Brasil por ocasião da 2ª Guerra Mundial. 

Os americanos instalaram bases militares no Rio Grande do Norte para servir os aviões que seguiam para o norte da África. “Durante meus estudos, descobri que existe um projeto muito claro por parte deles em nos manter como área de influência. Achei um documento elaborado por um assessor do governo norte-americano que dizia que o Brasil poderia, ao fim da guerra, ofuscar os EUA em termos agrícolas, e abastecer a Europa que estava faminta. Dizia o assessor que ‘precisamos evitar isso’ ”, relata o professor.

O livro Os Americanos (Contexto, 2009) trata de vários aspectos, conforme anuncia o título. Desde a história da formação do país, seus paradoxos, sua produção cultural – filmes, música, moda – que nos afeta diretamente. Explica o expansionismo, os anos dourados, as guerras que sempre estiveram envolvidos em todas as partes do mundo, a política, até a eleição do primeiro presidente negro, Barack Obama.

Neste semestre, o professor Tota lançou O amigo americano – Nelson Rockefeller e o Brasil (Cia. das Letras, 2014). A biografia foi uma sugestão do jornalista e amigo Matthews Shirts, cronista da Veja SP, com quem Tota faz caminhadas regulares pela Avenida Sumaré. Neste livro, o bilionário e político republicano, que sonhava ser presidente daquele país, chegou a ser eleito governador do estado de Nova York e vice-presidente, mas nunca foi indicado pelo seu partido à presidência.

Para escrever a biografia do milionário e político, o historiador e doutor em história pela USP e professor titular de história contemporânea da PUC-SP teve livre acesso aos arquivos da Fundação Rockefeller, nos Estados Unidos. “Tem uma parte da documentação que consegui nos EUA que ficou de fora do livro, por questões editoriais”, conta ele. Segundo o livro, Nelson Rockfeller “foi um político que manifestou genuíno interesse pelo Brasil, e aqui se envolveu, inclusive como investidor direto, mecenas e empresário, em diversas atividades: do cultivo da borracha ao planejamento urbanístico de São Paulo, sempre na tentativa de importar a eficiência e o American way of life como antídotos à expansão do comunismo”. Ainda sobre os americanos, escreveu O Imperialismo sedutor (Cia. das Letras, 2000).

Por conta de seus estudos, o professor Tota lembra que os americanos influenciam nossa cultura e política há muito tempo. Lembra que nossa independência, em 1822, teve forte influência da americana, que aconteceu em 1776. “Nosso patriarca da independência, José Bonifácio de Andrada e Silva, se correspondia regularmente com Thomas Jefferson”, lembra.

A 2ª Guerra Mundial também acabou aproximando Brasil e EUA. Walt Disney, a pedido do Departamento de Estado americano, produziu em 1942 o filme Alô, Amigos, em episódios que incluía vários países, entre eles, o Brasil. “Disney usou a música ‘Aquarela do Brasil’,  de Ary Barroso. No ano seguinte, Disney fez outro filme no qual o Pato Donald visitava o Brasil e conhecia o Zé Carioca, que na época não tinha ainda esse nome. Donald é recebido com um abraço bem forte, bem carioca, ao invés do aperto de mão. E o filme termina com os dois tomando uma cachaça. Nesses filmes, o Brasil era mostrado como um lugar com muita natureza, florestas. E isso seria associado à nossa sensualidade, à música e à gentileza de nosso povo”.

Para o professor, que mora no bairro desde 2000, “vemos os americanos como um povo que deu certo. Odiamos todos eles, mas morremos de amor pelo americanismo. A influência deles é muito grande aqui. Nossa roupa – aponta a calça jeans que veste – o cinema, a música, a economia…” Ele também acha que não vale a pena proibir ou rejeitar as influências que afetam nossa população. “Seria inútil e para isso lembro o folclorista potiguar Câmara Cascudo que disse ‘uma cultura só aceita da outra aquilo que interessa. E o que não interessa, é rejeitado!’”

Depois da crise econômica, como estão os americanos? “A classe média americana está desaparecendo e existem vários ensaios tratando disso. Manter a casa própria e o emprego para eles está difícil. Mesmo assim, a decadência dos EUA ainda vai demorar muito para chegar”, teoriza o historiador nascido em Piracicaba.

Sobre o futuro da relação entre Brasil e Estados Unidos, “não importa quem vença as eleições brasileiras em 2014”, alerta o professor, “ele ou ela [a entrevista foi feita antes do 2º turno] vai precisar ter um bom relacionamento com os EUA. Getúlio Vargas foi o único presidente brasileiro que não visitou a América depois de eleito. Problemas da política interna na época impediram a viagem”.

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